“Seu olhar – vitrine dos meus melhores dias. Fica,
eu digo. Me ajuda a matar o tempo até a luz voltar. Fica e come da minha
comida. Pelo menos até a chuva acabar de cair. Deu agora na televisão
que a cidade está debaixo d’água, mandaram ninguém se mexer. Consegue?
Tenta, vai. Empresto uma toalha, uma camiseta G, um par de meias e a
minha boca quente. Você já bateu recorde de permanência, de toda
maneira. Vamos lá, fica, na minha geladeira tem o resto de um frango de
padaria, a gente abre um vinho bom. Juro fazer rolinhos na sua franja
até você pegar no sono. Aí você gasta um de seus preciosos sins e deixa
pra depois mais um daqueles seus adeus, que, aliás, tem de sobra na sua
bolsa de pano, sempre à mão, para casos de emergência. E eu me pergunto:
você vai ficar porque está chovendo, ou está chovendo porque você vai
ficar? Tanto faz. Se eu bem te conheço, basta me despedir usando a
tática do me-liga-qualquer-coisa. Foi assim, desse jeito, que até hoje
nenhum dos seus adeus durou para sempre.”

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